HOMILIA DA MISSA DO DIA 4 DE AGOSTO DE 2026 – DIA DO PADRE
São João Maria Vianney (Cura d’Ars) – Paróquia Santíssima Virgem
São Bernardo do Campo – Dom Pedro Carlos Cipollini, Bispo Diocesano
Proclamação da Palavra: Jr 30,1-22 e Ev. Mt 15,1-14
Queridos presbíteros, nossos padres. Hoje celebramos o dia de vosso padroeiro. A todos e a cada um, apresento de coração meus votos e congratulações. Vocês o merecem! Toda a nossa Igreja se alegra com vossa presença, com o dom de vossa vocação e com tudo de bom que realizam em nossas comunidades, em nossa Igreja diocesana. Deus seja louvado por vocês! Diz o Vaticano II que os presbíteros estão unidos aos bispos como colaboradores, pelo sacramento da Ordem, e são “verdadeiros sacerdotes do Novo Testamento” (cf. LG 28).
A Palavra de Deus que acabamos de ouvir nos fala da tradição. No Evangelho, Jesus é interrogado: “Por que os teus discípulos não observam a tradição dos antigos?”. Esta pergunta se refere a temas fundamentais de toda religião: a tradição, o lícito e o ilícito, o bem e o mal. Enquanto os animais são regidos pela natureza, nós, seres humanos, somos regidos pelo coração, pelos desejos e pelas tradições — tradição é aquilo que é transmitido. Vivemos de recordações, do que guardamos dentro do coração, do que é “cultura”, pois cultivamos a terra, cultivamos as relações e a existência.
Jesus veio renovar a Lei e levá-la a seu pleno cumprimento. Ele indica os critérios para purificar a tradição e levar ao cumprimento o essencial da Lei dos antigos. Jesus renova todas as coisas. O importante é saber qual é o critério para praticar a Tradição, o que é tradicional. É Ele mesmo: é a Palavra e o Pão. A Palavra que se faz Pão! Palavra porque o ser humano expressa o sentido das coisas com a palavra. Pão porque o ser humano também tem fome de alimento, tanto espiritual como corporal, e isso se exprime com o Pão. Ouvir a Palavra e comer do Pão Eucarístico: é assim que seremos plantados pelo Pai em seu Reino, que não terá fim. O presbítero tem, na Igreja, a tarefa sublime de distribuir o Pão da Palavra e da Eucaristia. Sejam abençoados!
A partir desta reflexão, falemos do padre, o presbítero. Sua função é altíssima, pois é o sacerdote, aquele homem escolhido para ajudar o Pai a plantar, na vinha do seu Reino, as pessoas que aderem a seu Filho Jesus Cristo. Por isso, podemos nos chamar de “trabalhadores da vinha”, como se apresentou ao mundo o Papa Bento XVI. Jesus configura o sacerdote a si mesmo para agir em seu nome, para ser sua imagem de “bom pastor” entre os fiéis.
Assim como Jeremias, o profeta desta primeira leitura da Missa de hoje, o padre é ferido de amor por seu Deus, por Jesus Cristo, para curar seus irmãos a partir desta ferida de amor, sendo ele mesmo a manifestação do amor. “Por suas feridas fomos curados” (Is 53,5). É nesta perspectiva que o Cura d’Ars dizia que o “sacerdote é o amor do coração de Jesus”.
Todos sabemos do desafio que a nossa cultura representa para o padre. No âmbito interno da Igreja, o presbítero tem um posto de destaque, pois, através da fé, os fiéis reconhecem nele como que outro Cristo, pois é configurado a Cristo pela Ordenação Sacerdotal. É um homem de Deus, um ungido do Senhor! Tem uma altíssima dignidade. Mas, na sociedade, do ponto de vista da cultura reinante, é um homem que não goza de destaque. Pelo contrário, em muitos lugares, é questionado sobre sua opção, incompreendido em sua missão e, até mesmo, visto com desconfiança. Assim como muitos julgam a religião ultrapassada e o cristianismo um anacronismo, muitos não veem sentido na missão do sacerdote. Guardadas as proporções, é o mesmo clima que se respirava na época de São João Vianney, no tempo da Revolução Francesa, cujos líderes juravam acabar com a Igreja, vista como culpada de todos os males.
São João Vianney nasceu em 1786, em uma família de agricultores. Foi ordenado sacerdote em 1815 e faleceu em 1859, com setenta e três anos. Foi um homem entregue à evangelização pelo testemunho de bondade e caridade, pregando e confessando, celebrando a Eucaristia e atendendo aos peregrinos que passaram a frequentar sua pequena paróquia.
Destaco, na vida do Cura d’Ars, duas virtudes que proponho para nossa imitação: a esperança e a perseverança. Mais do que nunca, queridos padres, devem cultivar hoje a esperança, que é a virtude dos profetas do amanhã de Deus!
Esperança que leva pela mão a fé e a caridade. Sem esperança, corremos o risco de ficarmos tristes, insatisfeitos e desanimados. A esperança brota da certeza de que somos amados e escolhidos, apesar de nossas fragilidades. Jesus quer precisar de você, caro padre. Ele conta com você. Foi esta esperança que animou a vida do Padre Vianney, quando ele mesmo se sentia incapaz e quando seus esforços não produziam frutos.
O Papa Francisco deu uma longa entrevista a um jornalista (cf. Deus e o mundo que virá – conversa com Domenico Agasso, Ed. Planeta, São Paulo, 2021). Ele deixou estas belas palavras que, penso, animam qualquer padre, animam todos nós: “Quando nos sentimos perdidos e até um pouco desanimados, porque nos encontramos impotentes e parece que essa escuridão nunca vai acabar, ter e transmitir esperança significa ser anunciadores da verdadeira alegria e da confiança no mundo que virá: estas são exatamente as necessidades vitais da humanidade”.
A esperança nos diz que somos capazes de recomeçar sempre, não importando os erros que possamos ter cometido. Dá-nos a capacidade de superar a tristeza e entoar um canto novo!
A perseverança hoje é difícil em qualquer circunstância, pois tudo o que é sólido desmancha no ar (Milan Kundera), vivemos em uma sociedade líquida (Zygmunt Bauman) e a pressa nos atropela. Na Bíblia está escrito: “Se queres servir a Deus, prepara tua alma para a provação” (Eclo 2,1).
É difícil perseverar nos trabalhos pastorais, na busca de ter o “cheiro de ovelhas”, de realizar sempre as mesmas tarefas, no cultivo das proximidades recomendadas com Deus, com o povo, com o presbitério e com o bispo. Mais ainda, é difícil perseverar na oração, em meio aos múltiplos deveres e desafios do dia a dia. Vamos rezar hoje, sobretudo, pela nossa perseverança.
Não há nada mais triste para um bispo do que receber a notícia de que um padre está pensando em abandonar o ministério ou deixou o ministério tão maravilhoso que um dia recebeu. Para perseverar, além da oração, é preciso ter bons amigos padres e aprender a discernir. No discernimento, o coração nos fala de Deus, e nós devemos aprender a compreender sua linguagem, que nos estimula sempre a confiar em seu amor.
Como bispo, fiquei feliz com a proposta da Pastoral Presbiteral de celebrarmos esta Missa juntos, neste dia significativo para o Presbitério. É um momento de confraternização na fé, na Eucaristia, que dá sentido ao nosso ministério, e na devoção ao padroeiro dos padres. Este momento serve para nos unir mais como Presbitério, renovando em nós o desejo de servir e de nos ajudar uns aos outros. Observo com satisfação o quanto vocês se ajudam uns aos outros na missão. Parabéns! Continuemos assim.
Permitam-me, em nome de toda a nossa Igreja Particular e dos fiéis que tanto estimam vocês, agradecer a dedicação, a busca de servir melhor e a preocupação em cumprir o dever tão exigente do vosso ministério. Temos um bom presbitério, do qual podemos nos orgulhar.
Estejam certos: Deus é a vossa herança, Deus ereditate mea, como diziam os nossos padres do passado, que já faleceram e aos quais recordamos com gratidão nesta Missa. Agradecemos aos padres eméritos, recordando, em especial, os doentes. Em tudo e por tudo, demos graças a Deus.
Continuaremos nossa Eucaristia com o ágape fraterno do almoço oferecido pela Paróquia Santíssima Virgem, que hoje nos acolhe e à qual agradecemos a generosidade.
Parabéns a todos! Sejam felizes, sejam santos!
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
+ Dom Pedro
Bispo de Santo André
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