SEMANA SANTA – MISSA VESPERTINA DA CEIA DO SENHOR
HOMILIA
Missa: Ex 12,1-8.11-14; Sl 115; 1Cor 11,23-26; Jo 13,1-15.
Nesta noite santa, celebramos a Eucaristia, o memorial da última ceia de Nosso Senhor Jesus Cristo que, “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1). Este acontecimento marca a instituição do mistério eucarístico e do sacerdócio, além de nos transmitir o mandamento novo do amor, desdobrado na lição de serviço, o lava-pés.
A primeira leitura nos apresenta a passagem do livro do Êxodo que transmite as prescrições da Páscoa antiga, a Páscoa judaica que, herdeira da antiga festa primaveril de pastores nômades que celebravam a passagem do inverno à primavera, agora recorda a saída do povo de Deus da escravidão do Egito à terra prometida. Essa refeição memorial é apenas uma antecipação da verdadeira festa da passagem à vida nova que Jesus inaugurará em sua própria pessoa, no mistério de sua morte e ressurreição. A “passagem” do Senhor pela terra do Egito, nada mais é do que um sinal opaco daquela passagem de Jesus ao Pai, tendo cumprido com sua missão neste mundo e tendo-nos re-unido e carregado consigo, em seu sacrifício de amor redentor.
Contemplemos irmãos e irmãs, o modo pelo qual, na história da salvação, Deus busca e salva o seu povo, revelando-se perfeito em tudo o que faz e sumamente bom e gratuito em nos dar a sua própria vida. Sim, Deus não quer dar a vida ao povo, apenas nos aspectos materiais, básicos e necessários à nossa existência neste mundo. Ele quer nos comunicar também e acima de tudo, a sua própria vida divina. E o que significa sermos participantes de sua vida? Significa deixarmo-nos inserir no mistério de sua comunhão de amor que nos projeta para a eternidade. Pela graça, unidos ao Filho Jesus Cristo, somos inseridos no amor do Pai, na comunhão do Espírito Santo. Não é mais uma terra geográfica que Deus nos promete, mas as largas de seu infinito amor, nos céus.
Irmãos e irmãs, à nossa participação na intimidade da vida e do amor de Deus, podemos chamar comunhão. Esta palavra que tem origem grega (koinonia) implica unidade, de modo amplo. Na vida em Cristo, no mistério de sua morte e ressurreição, nos tornamos participantes da comunhão do amor uni-trino, ou seja, unidos a Deus que é amor. Podemos falar, então, de uma união que não consiste apenas em “estar juntos”, mas “fundidos” como o ferro incandescente torna-se um com o fogo. Assim nós, inseri

dos no amor de Deus, somos abrasados por Ele para nos tornarmos um com Ele.
Jesus, o Filho de Deus que se encarnou e assumiu a nossa condição humana, uniu-nos a si de tal modo que, antes de passar ao Pai, deixou-nos o sacramento de seu corpo e sangue para que estejamos sempre n’Ele, participantes de sua morte e ressurreição. O corpo e o sangue do Senhor, que nós comungamos, vivo nas espécies consagradas do pão e do vinho, nos fazem experimentar aquilo que tão bem expressou o apóstolo São Paulo: “Já não vivo mais eu, mas Cristo é quem vive em mim” (Gal 2,20). Em outras palavras, nós nos tornamos aquele do qual nos alimentamos, absorvidos por Ele, para a plenitude da vida e da salvação.
Mas, irmãos e irmãs, o nosso Deus maravilhoso, não quis que essa experiência fosse somente pessoal, de cada um individualmente com Jesus Cristo. Isso não nos ajudaria a superar o orgulho e o egoísmo, raízes do pecado. Ele deseja ao mesmo tempo que entremos em comunhão entre nós, de tal modo a estarmos todos juntos, unidos, como membros do corpo de Seu Filho. Por isso nosso Senhor, na noite em que foi entregue, levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura. Em seguida, começou a lavar os pés dos discípulos. Esse gesto forte e inquietante, nos ensina o amor-serviço; concretiza o mandamento novo: “amai-vos como eu vos amei”. Que profundidade do mistério de Deus a nos ensinar que o amor se traduz em gestos concretos de mútua doação, de humildade, de serviço livre e gratuito! Que profundidade do mistério de um Deus que, tendo nos comunicado sua própria Palavra, deu-nos o exemplo, colocando-se aos nossos pés para nos irmanar no amor. Prostra-se aos pés da criatura, o próprio Criador. “Pega-nos” pelos pés, para agarrar-nos no coração, o Bom Pastor que, tendo buscado a ovelha desgarrada, coloca-a nos ombros, segura-a pelos pés junto ao seu peito e a reintroduz no rebanho! Pedro reluta, não entendendo o gesto de Jesus: nega os pés, aquele que negará o Mestre pelas palavras da dissimulação do medo, mas que, no fim das contas, se deixará seduzir por inteiro pelo Seu amor: “Tu sabes que eu te amo” (Jo 21,15-17). Em Pedro se figura a nós um “caminho” de discernimento interior, que começa nos pés, para chegar à verdade do coração, no esforço do discipulado e da comunhão com Jesus!
Percebamos, irmãos e irmãs, como o Senhor ensinou aos seus discípulos e nos ensina também a nós, hoje, o que significa, portanto, segui-lo! Ele vai aos nossos pés, para nos resgatar e para nos mostrar que o seguimento consiste em caminhar ao encontro d’Ele e do próximo para servi-Lo no irmão. Os pés, de fato, expressam em essência o significado do seguimento na vida cristã. Mas somente ter os pés não seria suficiente. Dos pés se chega ao coração: é a trajetória que devemos percorrer e, só então, o entendimento será capaz de compreender uma lógica que não pertence à matemática, mas a uma forma de razão implícita, quase “sem pensar”, detentora de outra forma de operar, a lógica do amor. Aqui prevalece a razão do coração (Cardeal Newman)! Um coração forte e impregnado do próprio Cristo, alimentado pelo coração d’Ele mesmo, pelo seu corpo e sangue, e que tem razões que até a razão desconhece (Pascal), sendo capaz de fazer loucuras, indo até à cruz, por puro amor. Quando raciocinamos muito, se observarmos bem, caímos facilmente no julgamento e nas justificativas que freiam nossos pés tornando-nos incapazes de agir. Isso não significa que crer e amar, a exemplo de Jesus, é abraçar uma religião irracional. A racionalidade é outra: é a decisão da entrega, a decisão da gratuidade, a decisão livre de fazer o bem sem olhar a quem pelo simples fato de almejarmos o bem, convictos de que “é bom ser bom”, mesmo se doer. É uma razão indireta, quase intuitiva, que nos leva a sermos quem somos, a agir em conformidade com nossa mais genuína natureza humana, sendo quem somos, na verdade, como o amor de uma mãe por um filho. Aqui o amor e a verdade se encontram e se iluminam, com uma luz que vem do Criador!
Supliquemos a nosso Senhor Jesus Cristo, a graça de sermos capazes de amar, sem antepor a esse amor, nossas muitas argumentações, mas discernindo com a inteligência do coração e com o seu impulso de entrega, de doação, de cruz e ressurreição. Peçamos a graça de traduzir o lava-pés em gestos concretos, em sacrifícios de solidariedade, de respeito, de justiça, de perdão e de edificação da paz. Alimentando-nos com o corpo e o sangue do Senhor, nesta noite santíssima, abramo-nos ao seu amor, imitemos a sua humilde entrega de vida, recordemos o sentido mais profundo de nosso seguimento, “até que ele venha” (1Cor 11,26).
Giovanni Agostino da Lodi, “Lava-pés”, Galeria dell”Accademia, Veneza, 1500, óleo sobre tela
Padre Rafael Capelato, Paróquia Bom Jesus de Piraporinha – Diadema/SP
