SEMANA SANTA – CELEBRAÇÃO DA PAIXÃO DO SENHOR
HOMILIA
Liturgia da Palavra: Is 52,13-53,12; Sl 30; Hb 4,14-16;5,7-9; Jo 18,1-19,42.
Irmãos e irmãs, ressoam aos nossos ouvidos as palavras meditadas no dia de ontem: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34). E se ontem o Senhor nos deixava, na última ceia, o memorial de sua paixão no pão e no vinho, seu corpo e seu sangue, hoje Ele realizou, por nós, o sacrifício cruento desta entrega, na cruz. E se ontem o Senhor lavava os pés dos seus discípulos dando-lhes o exemplo do amor-serviço, hoje Ele lava nossos pecados em seu sangue derramado, amando-nos realmente até o fim!
As palavras do profeta Isaías, na primeira leitura, nos impressionam, pois, de modo prefigurado no servo sofredor, nos falam dos sofrimentos de Jesus: desfigurado, não parecia ter aspecto humano, sem beleza nem atrativo para o olharmos, desprezado como o último dos mortais, coberto de dores, cheio de sofrimentos. E acrescenta o profeta: “A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores; (…) a punição a ele imposta era o preço da nossa paz, e suas feridas, o preço da nossa cura” (Is 53,4s.). Todas estas palavras cumpriram-se em Jesus na paixão. Do mesmo modo, a oração do salmo 30, imaginemo-la brotando dos lábios de nosso Senhor, dirigida ao Pai, a quem se fez totalmente fiel. Contemplemos, com estas palavras do Antigo Testamento, o mistério de nossa salvação, cumprida uma vez por todas no Filho de Deus que se entregou por nós, sofrendo livremente o suplício da cruz.
O relato da Paixão segundo São João, como acabamos de ouvir, nos mostra que toda a trama, traição, abandono, prisão, julgamento, condenação e crucifixão de Jesus, foram reais. Nenhuma outra parte do Evangelho nos traz tantas riquezas de detalhes históricos como a narrativa da paixão, gravada desde sempre na memória do coração dos discípulos e das primeiras comunidades cristãs. O Senhor vivenciou realmente a Paixão e a morte. Ele entregou-se livremente, por amor! Ele não nos amou de brincadeira (Santa Ângela de Foligno)! E, dentre tantos que presenciaram estes fatos, citemos a mais importante testemunha fiel: a Virgem Maria que esteve de pé, junto à cruz de seu Filho. Ela nos ensina a permanecermos com Jesus, nunca o abandonarmos. Ela nos ensina a amá-lo, na fidelidade, na fé, na esperança de que Deus realiza suas promessas. Maria aos pés da cruz nos foi dada como mãe da Nova Aliança, mãe da Igreja nascente, mãe de todos nós que somos chamados a dizer “sim” aos planos de Deus, mesmo que Ele nos prove e nos reserve uma espada de dor como forma de revelar em nós a sua glória, glória que só se alcança no verdadeiro amor, aquele que é maturado pelo sacrifício da entrega de si, total e generosa.
Mas, poderíamos, mesmo assim, nos perguntar: qual o sentido de celebrarmos anualmente a Sexta-feira da Paixão? Se sabemos que o Senhor venceu a morte, ressuscitado, por que, então, nos reunirmos para esta liturgia, neste dia austero de silêncio e de jejum? Para, humildemente, lembrarmo-nos de suas dores, tomarmos parte em sua cruz e não sermos ingratos. Jamais poderíamos nos esquecer das dores sofridas por nosso Salvador para redimir-nos do pecado. Jamais poderíamos nos esquecer de que à glória da ressurreição, Ele chegou pela cruz. Jamais poderíamos nos esquecer o que Ele mesmo nos disse: “se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto” (Jo 12, 24). Jamais poderíamos deixar de agradecer a Deus por tão grande misericórdia para conosco. E jamais poderíamos nos esquecer que, batizados em Cristo, se com Ele morrermos, com Ele ressuscitaremos. Somos chamados a interiorizar, portanto, o mistério de Sua morte, para termos vida n’Ele. Assim, aos que pensam que nós hoje realizamos um velório ou que acreditamos em um Deus morto, respondemos com a demonstração de nossa consciente e serena gratidão ao Senhor crucificado-ressuscitado e com a proclamação de que a cruz de nosso Senhor Jesus Cristo é nossa única esperança (Ave crux, spes unica). Sim, a cruz para nós é caminho de salvação e penhor de vitória, certos de que o seguimento de Jesus, sem a cruz, não é possível, e a fé cristã terminaria em um discurso de autoajuda, um coaching, uma filosofia de vida, uma ideologia, fugaz e passageira. Nós, hoje, ao contrário, renovamos nossa pertença a Cristo, no mistério de sua entrega de amor, para alcançarmos a vitória com Ele, como Igreja, membros de seu corpo. A cruz nos ensina, assim, a amar como Ele nos amou!
Neste dia de silêncio, de meditação, de contemplação e de entrega de nossa vida a Cristo, no amor, coloquemo-nos na fenda de seu lado aberto. Entremos no mistério de seu coração rasgado. Deixemo-nos lavar na fonte do sangue e da água que jorraram do coração de Jesus. Dali é que nós nascemos, cada um e a Igreja toda. Ali fomos recriados. Assim como do lado de Adão adormecido, Deus tirou Eva, assim, do lado de Cristo, adormecido no sono da morte na cruz, Deus fez nascer a Igreja, esposa de Cristo, redimida e salva. E pelos sacramentos do Batismo e da Eucaristia, fomos feitos participantes do mistério do corpo do Senhor, como Seus membros, a Igreja. Assim, irmãos e irmãs, tenhamos consciência e agradeçamos: o Senhor nos recriou, nos perdoou, nos pacificou pelo sangue de sua cruz, e só espera que tenhamos fé e esperança, unidos a Ele. Não deixemos, então, de suplicar humildemente sua piedade por toda a Igreja que peregrina na fé e pelo mundo inteiro que ainda jaz na morte do pecado, na escuridão das guerras, da doença e da fome. Que a cruz, erguida em todos os recantos deste mundo, seja um sinal perene de um amor que não foi em vão e que espera nosso reconhecimento e nossa entrega para alcançarmos os frutos de tão grande dom de salvação. Rezemos, colocados no alto, junto da cruz do Senhor, do íntimo de seu coração, pelo fim da violência e das guerras, pela paz no mundo inteiro!

Cristo Crucificado, desenho de São João da Cruz, após uma experiência mística, datado entre 1572-1577, Convento da Encarnação – Ávila.
O desenho representa Jesus Crucificado, com as marcas de seu sofrimento, no drama terrível de sua dor, na cruz. O ângulo de visão, como se o observador estivesse olhando do alto, leva-nos, em primeiro lugar, a reconhecer a grande humilhação do Filho de Deus que “abaixou-se de sua condição” (Fl 2,6-11). Ao mesmo tempo, somos como que levados a contemplar o crucificado a partir das alturas, do olhar do Pai que nos entregou seu Filho, de tal modo a nos lembrarmos que o sacrifício de Cristo nos reconciliou com o Pai. Por isso mesmo, olhando do alto, façamo-nos pequenos diante de tão grande dom de salvação!

“Cristo de São João da Cruz”, Salvador Dalí (da fase do seu “misticismo nuclear”, fase de sua conversão), 1951, Museu de Glasgow/Escócia. A obra inspirou-se no desenho de São João da Cruz e foi realizada nos anos em que o mundo se aterrorizou com a bomba atômica de Hiroshima e Nagasaki. Salvador Dalí quis, de certa forma, expressar em seu quadro, a impressionante nuvem atômica que, porém, não suplanta e não anula, a grande “explosão” do amor de Cristo Crucificado. “Quem nos separará do amor de Cristo?” (Rm 8,35). Rezemos pelo fim das guerras!
Padre Rafael Capelato – Paróquia Bom Jesus de Piraporinha – Diadema/SP.
