SEMANA SANTA – SOLENE VIGÍLIA PASCAL
HOMILIA
Liturgia da Palavra: Gn 1,1-2,2; (Sl 103); Gn 22,1-18 (Sl 15); Ex 14,15-15,1 (Ex 15); Is 54, 5-14 (Sl 29); Is 55,1-11 (Is 12); Br 3,9-15.32-4,4 (Sl 18); Ez 36,16-17ª.18-28 (Sl 41); Rm 6,3-11 (Sl 117); Evangelho: Mt 28,1-10.
Meus irmãos e irmãs, nesta noite santa nosso Senhor Jesus Cristo passou da morte à vida. Ele é nossa Páscoa, pois, pelo Batismo, também nós passamos com Ele da morte à vida. Iniciamos esta solene vigília acendendo este Círio Pascal, onde vemos a incisão de uma cruz que, por sua vez, traz, entre seus braços, os algarismos do ano do Senhor de 2026. Acima da cruz, a letra grega Α (alfa) e Ω (ômega), respectivamente a primeira e a última letras do alfabeto grego e que simbolizam Jesus Cristo que é o princípio e o fim de todas as coisas, como lemos no livro do Apocalipse 22,13. Este círio, aceso pelo fogo novo que abençoamos, como a coluna luminosa que ia à frente do povo na saída do Egito (Ex 13,21), hoje nos aponta o próprio Cristo vivo, caminho verdade e vida, a nos conduzir ao céu.
Percorremos importantes passagens do Antigo Testamento que resumem para nós toda a história da salvação, desde a criação do mundo e do ser humano, passando pelo sacrifício de Isaac, pela libertação do Egito, pelos profetas que clamam à volta ao Deus único, vivo e verdadeiro, até chegarmos à proclamação da nova e eterna aliança em Jesus Cristo, vencedor do mal e da morte, ápice de toda a salvação de Deus, centro de toda a Sagrada Escritura. A Palavra de Deus, desse modo, nos leva a reconhecer o quanto Deus nos ama e deseja nos salvar. Ele que nos criou dotados de liberdade, não deseja ver-nos vítimas das más escolhas de nossos pecados e insiste continuamente em nos dar a sua vida divina. Definitivamente, é em Jesus Cristo, seu Filho Unigênito que nós fomos resgatados do pecado e da morte. “E a maior prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8). Embora não merecêssemos, Deus nos resgatou a preço alto, pelo sangue de seu Filho. Eis, irmãos e irmãs, a Páscoa, nossa festa, em que o real cordeiro, Jesus Cristo, se imolou, marcando nossas almas com o seu divino sangue. Tão grande é este acontecimento que nós chegamos a proclamar o pecado original de Adão e Eva uma feliz culpa, dado que nos possibilitou a vinda de Cristo, graça que suplanta nossa condição de inocência original. “Ó pecado de Adão indispensável, pois o Cristo o dissolve em seu amor; ó culpa tão feliz que há merecido, a graça de um tão grande redentor”.
Detenhamo-nos nas palavras do Evangelho e observemos a beleza de tantos aspectos que nos falam com realismo do acontecimento da ressurreição de Jesus. Foi no amanhecer do primeiro dia da semana (domingo, dies Domini, dia do Senhor), que as duas mulheres (Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago), conforme o relato de São Mateus, foram ver o túmulo e presenciam o grande tremor de terra e a aparição do anjo do Senhor que retirou a pedra e sentou-se nela. Aqui temos o primeiro grande sinal: a pedra removida e o túmulo vazio. A experiência do tremor de terra e a visão do anjo cuja aparência era como um relâmpago e cujas vestes eram brancas como a neve apenas preparam para a grande constatação: “Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito!” (Mt 28,6). Elas recebem do anjo a missão urgente de correr contar aos discípulos o fato da ressurreição e o recado de que Ele os precedia na Galileia. Elas estavam com medo, mas correram com grande alegria (cf.: Mt 28,8).
Percebamos, irmãos e irmãs, esta sutileza do relato, primeiramente quanto aos guardas que vigiavam o sepulcro: “ficaram com tanto medo do anjo que tremeram e ficaram como mortos”. E quanto às mulheres: “estavam com medo, mas correram com grande alegria para dar a notícia aos discípulos” (Mt 28,8). Diante do tremendo acontecimento acolhido com fé, as mulheres não se deixam terrificar; a alegria as impulsiona e as torna mensageiras do grande acontecimento; são apóstolas dos apóstolos, num papel de verdadeiro protagonismo, coisa impensável na cultura da época, o que nos faz acolher esta novidade cristã não como fábula ou mito inspirados em outras narrativas fantasiosas, mas como acontecimento real e transformador.
Mas a pedra removida, o túmulo vazio e a visão do anjo não bastaram! “De repente, Jesus foi ao encontro delas, e disse: alegrai-vos!” (Mt 28,9). E o Senhor ressuscitado lhes reafirma para que não tivessem medo e que fossem anunciar aos discípulos – que Jesus chama de “meus irmãos” – para se dirigissem à Galileia para vê-lo. É, portanto, a própria aparição de Jesus que fortalece a fé das mulheres e fortalecerá a fé dos discípulos. “Alegrai-vos”, diz Jesus às mulheres e o diz também a nós nesta noite santíssima. De que alegria o Evangelho trata? Daquela que resulta do encontro com o Senhor da vida! Esta alegria nos vem do próprio Senhor, é dom de seu Espírito, preenche o íntimo do nosso coração, não depende necessariamente dos fatores exteriores e perdura na alma daqueles que, pela fé, se entregam ao amor do Senhor. Aconteça o que acontecer, sabemos que a vitória da vida de Cristo é a garantia da nossa vitória também, a nós que fomos batizados e temos n’Ele a nossa única esperança. Proclamemos, irmãos e irmãs, com a nossa vida, a alegria de Cristo Ressuscitado e supliquemos por todos os que estão tristes e na dor!

Fra Angelico, Ressurreição de Cristo, afresco, 1439-1443,
Museu Nacional de São Marcos, Florença.
No afresco, identificam-se as mulheres que foram muito cedo ao túmulo, no primeiro dia da semana. Encontraram o túmulo vazio e o anjo luminoso, sentado sobre a pedra do túmulo, apontando para sepulcro vazio e para o alto, ao mesmo tempo. O artista integrou duas tradições: pintou o túmulo como uma caverna, mas também como uma sepultura, ao modo latino. Enquanto as mulheres absortas, com semblante de tristeza, admiração e inquietação, voltam-se para o anjo, Maria Madalena busca avidamente com o olhar, o Senhor, no vazio do sepulcro. Mas o próprio ressuscitado aparece por trás da cena, dentro de uma “amêndoa”, (forma de uma semente) muito luminosa, entre nuvens, carregando a bandeira branca com a cruz impressa em vermelho, numa das mãos e, na outra, uma palma verde, símbolo da vitória sobre a morte. A imagem nos insere no relato da ressurreição, segundo os Evangelhos sinóticos, e nos chama à busca insistente pelo Senhor da vida, única razão de nossa alegria e de nossa paz!
Padre Rafael Capelato – Paróquia Bom Jesus de Piraporinha – Diadema/SP.
